Promover um ambiente psicologicamente seguro é fundamental para desenvolver accountability, mas sem accountability, quem irá se posicionar?
Aquela velha pergunta “quem nasceu antes, o ovo ou a galinha” caberia perfeitamente para ilustrar o dilema acima.
A Segurança Psicológica difundida no estudo de Amy Edmondson passou a ser bastante conhecida principalmente em tempos tão duros, nos quais as empresas tiveram que aprender na marra a cuidar da saúde mental de seus colaboradores e a promover um ambiente profissional saudável.
Amy foi muito sábia quando percebeu a importância da construção de um ambiente seguro para que as pessoas fossem capazes de se posicionar. Para a autora
Segurança Psicológica é amplamente definida como um clima em que as pessoas estão à vontade para se expressar e serem elas mesmas.
Além disso, Segurança Psicológica está associada à
crença de que você não será punido ou humilhado por colocar suas ideias, perguntas, preocupações ou erros.
Ou seja, um ambiente capaz de promover confiança, transparência e maturidade nas relações.
Mas então basta construir um ambiente psicologicamente seguro para promover relacionamentos mais maduros e saudáveis?
Como aprendi com meu instrutor da Fearless Organization (https://fearlessorganization.com/), um território fértil não é suficiente para se ter um campo florido. Para que algo nasça, é preciso ter sol, chuva, cuidado, mas principalmente, uma semente.
Pense na sua organização por essa ótica: se eu desenvolver um ambiente seguro psicologicamente, passarei a dar mais condições para que as pessoas se manifestem, mas não garante sucesso.
É neste momento que trago o elemento accountability para a mesa. Quantas vezes não trabalhamos com o desenvolvimento de uma postura protagonista e autorresponsavel dentro das organizações e acabamos por não ver tanto resultado quanto gostaríamos? Porque ser accountable não significa aguentar porrada, crítica ou humilhação. Como costumo definir,
Accountability é a capacidade de reconhecer e assumir seus comportamentos e impactos nas situações que enfrenta e gerar soluções e mudanças necessárias a partir do repensar das próprias ações.
Em nenhum momento ser autorresponsável significa ter que aceitar um ambiente bélico e é por isso, que muitas pessoas desistem de assumir, por exemplo, seus erros e falhas para seus gestores.
Só que o dilema não para por aí. Se investirmos na construção de um ambiente absolutamente seguro que não aceita nenhuma situação adversa, estamos colocando em risco a maturidade das pessoas. Entende-se maturidade como nossa capacidade de responder de forma adequada às situações, inclusive assumindo nossos comportamentos. Se coloco a “culpa” por minha falta de posicionamento no ambiente, onde está a minha parte? Onde está a minha accountability?
Recentemente dei uma palestra para explorar exatamente esse ponto:
Será que não estamos exigindo um pouco a mais do ambiente e utilizando desse artifício da Segurança Psicológica como uma forma de justificar nossas dificuldades em enfrentarmos situações difíceis, conversas duras ou erros cometidos?
Por um lado, um ambiente tóxico e ameaçador dificulta qualquer postura autorresponsável, por outro, estamos vivendo momentos nos quais a accountability ainda deixar a desejar em diversas situações, independente do ambiente. Qual é o equilíbrio ideal desses dos elementos?
Organizações são organismos vivos. Por isso uma resposta única pode não suprir todas as questões abertas nesse texto, mas de uma coisa eu tenho certeza: dificilmente uma semente vinga em um terreno árido, assim como, um terreno fértil não é capaz de se tornar florido por si só.
Na dúvida, sugiro então cuidar dos dois elementos: desenvolver ambientes seguros psicologicamente e desenvolver accountability nos líderes e colaboradores. Assim o organismo vai buscando sua autorregulação natural até encontrar o seu próprio ponto de equilíbrio.
Texto escrito por Julia Gianzanti – Sócia-diretora da OrigemRH – Desenvolvimento Humano

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