Julia Gianzanti

Palestrante | Professora | Autora | CEO da OrigemRh

Bem-Estar, Saúde Mental e Social: responsabilidade de quem?

Semana passada tive a oportunidade de participar do Mind Summit 2025 com palestrantes incríveis. Em estilos diferentes, cada um trouxe uma mensagem importante sobre bem-estar e saúde mental nas empresas.

  • Jan-Emmanuel De Neve abriu as palestras internacionais com dados alarmantes. Com mais de 30 milhões de dados coletados, De Neve declara que 87% das pessoas afirmam que bem-estar leva a uma melhor performance, mas apenas 19% das empresas apresentam ações tangíveis. A maior lacuna ainda está entre o falar e o agir, principalmente da alta liderança.
  • Outro dado interessante é que, apesar das pessoas pedirem boa remuneração e flexibilidade no trabalho, o que efetivamente impacta o bem-estar é a capacidade de possuir bons relacionamentos e senso de pertencimento social.
  • Os dados apresentados também comprovaram que: pessoas mais felizes são mais produtivas! Apesar dessa informação não ser novidade, a ciência aplicada na análise dos dados não deixa nenhuma dúvida do impacto em toda jornada do colaborador. A felicidade no trabalho atrai talentos, aumenta desempenho, gera fidelização e diminui radicalmente os níveis de sinistralidade.
  • Mas ainda temos uma questão em aberto: 53% das pessoas acreditam que a empresa é a principal responsável pelo bem-estar no trabalho.
  • Em seguida tivemos uma rápida entrevista com a maravilhosa Amy Edmondson, que não pode estar presencialmente nesse encontro. Amy reforçou o recado sobre Segurança Psicológica não ser um ambiente confortável, mas sim a capacidade de criarmos oportunidades de conversas transparentes e maduras.
  • Adam Grant também participou apenas de forma virtual e apresentou um dado interessante de uma pesquisa recente sobre senioridade no trabalho. Adam relatou que quanto mais inteligente a pessoa, mais difícil dela estar aberta para reaprender e enfatizou o recado de que vulnerabilidade gera empatia nas relações.
  • No painel liderado por Ana Cristina Limongi-França e Lina Nakata, os dados coletados nas pesquisas “Lugares Incríveis para Trabalhar” demonstram que 15% das pessoas estão em um nível de estresse próximo ao esgotamento e que a geração Z é a mais acometida. Segundo as pesquisadoras, os maiores motivadores do estresse são: sobrecarga de trabalho, cobrança por resultados e liderança tóxica.
  • No painel realizado com Mauricio Giamellaro – CEO da Heineken, o recado foi claro: CEOs precisam ter coragem de perguntar para as pessoas se elas estão felizes. Maurício lidera números impressionantes de bem-estar e felicidade e reforçou a importância do CEO ser a principal pessoa a defender verdadeiramente uma cultura de bem-estar por meio da autenticidade pessoal.
  • A conversa com os diretores Bruno Pelli, Marcelo Bacci e Barbara Dinalli da Vale demonstrou o desafio da gigante em transformar a cultura e deu a dica: comece com quem está disposto, não com as áreas que tem piores índices. Esse movimento permite ampliar aos poucos o entendimento de felicidade e bem-estar, promovendo um crescimento orgânico das ações.
  • Paula Carvalho Benevides da Natura foi sensível em sua fala sobre liderança regenerativa e afirmou o compromisso em público de que até 2050 a Natura pretende ser uma empresa de regeneração. De forma humilde, Paula compreende que bem-estar não é um estado definitivo e que por isso, exige ações constantes que promovam autoconsciência individual e coletiva.
  • O evento foi finalizado com chave de ouro: Tal Ben-Shahar foi a inspiração do dia. De forma divertida e profunda, Tal Ben nos lembra da importância do sentir como a maior fortaleza humana, e que quando rejeitamos as emoções, elas tendem a crescer ao invés de sumirem. O palestrante explicou que toda vez que bloqueamos uma emoção, nosso organismo tende a bloquear as demais emoções, gerando desconexão com a nossa natureza: “emoções não são boas ou ruins, mas os comportamentos são”. O convite foi para uma maior autoconsciência capaz de promover uma gestão mais clara e efetiva dos nossos comportamentos.
  • Em uma de suas últimas falas, Tal Ben conta que o estresse não é o problema, mas a falta de recuperação após o evento estressante é que nos enfraquece e reforçou ações simples, mas efetivas em relação à busca do equilíbrio: micro-descompressões, uma boa noite de sono e atividade física pelo menos 3 vezes por semana. Essas recomendações são frutos de suas pesquisas e das ações que impactam o bem-estar e a felicidade.

Esse encontro reforçou o que já estava evidente: estamos percebendo um aumento significativo da preocupação com o bem-estar e saúde mental nas organizações, bem como a necessidade imediata de ações efetivas e verdadeiras. Mas uma inquietação ainda permanece: se os dados sobre estresse, depressão, burnout e suicídio continuam aumentando, qual a responsabilidade individual na busca de uma melhor saúde mental?

O que vejo em diversos momentos nos projetos de cultura e liderança, é que a responsabilidade da mudança ainda está no outro. Digo isso em todas as esferas:

  • A alta liderança entende que o RH precisa liderar a mudança
  • O RH entende que a liderança precisa ser protagonista da mudança e
  • Os colaboradores esperam a mudança da organização e da liderança, pois se sentem a parte menos potente dessa conversa.

Enquanto isso, nada acontece e os comportamentos individuais permanecem os mesmos: fofoca de corredor, reclamação, culpabilização, excesso de reuniões sem sentido, falta de colaboração entre as áreas, cobrança em excesso, falta de segurança psicológica para falar, falta de coragem para arriscar…

A mudança desses comportamentos parte de iniciativas individuais e de novos compromissos coletivos.

Desde desligar a notificação de WhatsApp do seu relógio a não enviar mensagens de cobrança fora do horário de trabalho, desde buscar uma conversa mais desconfortável ao invés de reclamar do colega para outra pessoa, desde contribuir com uma ideia ao invés de criticar as pessoas que estão tentando fazer algo diferente… todos esses comportamentos individuais interferem na saúde de cada um e nas relações que são construídas.

A verdade é que para mudar, precisamos de autoconsciência e autorresponsabilidade individual e coletiva e se a responsabilidade é de todos, então não é de ninguém.

E aí: qual será sua parte no desenvolvimento da sua saúde mental e de seus colegas?

Publicado originalmente no LinkedIn


Julia.Gianzanti Avatar

Leave a comment