Julia Gianzanti

Palestrante | Professora | Autora | CEO da OrigemRh

A armadilha entre o ‘fazer’​ e o ‘estar’​

A armadilha entre o 'fazer'​ e o 'estar'​

A preocupação com a administração da vida parece distanciar o ser humano da reflexão moral – Zygmunt Bauman

Há alguns anos estamos enfrentando a virtualização das relações. Antes o que parecia ser uma possibilidade estranha, se tornou nosso maior cotidiano. Nos acostumamos à aparição dos filhos no meio da reunião e aos pets caninos latindo durante uma conversa no meet. Por um lado, isso nos trouxe muitas facilidades de logística, e até uma sensação de que podemos ser nós mesmos nesse ambiente, mas por outro, surgiu um novo jeito de trabalhar por meio da ‘multitarefação’.

Após inúmeras aulas e treinamentos on-line que tenho ministrado, posso garantir que não tive um só momento em que os olhos dos participantes não estavam direcionados para outra atividade. Eu mesma me perco na distração dessa multitarefa quando estou participando de uma reunião e de repente me pego tentando retornar ao que estava sendo dito.

O ponto que me chama atenção é que não faltam estudos para nos mostrar que esse excesso de coisas ao mesmo tempo são improdutivas, além de perigosas para nossa saúde mental. Mas então, por que continuamos a nos colocar nessas situações?

Quando convido os alunos ou participantes a tentarem manter sua presença mental, vejo que existe uma tentativa inicial, mas logo em seguida, começo a perder alguns olhos para outros estímulos. Seja WhatsApp, email, ou até uma apresentação que precisa ser feita naquela manhã, tudo se torna um concorrente imediato a nossa atenção.

O que está faltando então? Por que não estamos conseguindo parar?

Bauman, em sua obra Modernidade Líquida, nos convida a refletir sobre a diferença entre ‘ter’ x ‘ser’. O sociólogo apresenta uma crítica sobre a capacidade de nos conectarmos de verdade com as pessoas e sociedade, trazendo essa leitura como uma continuidade à necessidade do ‘ter’. Mas com a pandemia, capitalismo consciente, e até com a crise financeira, começo a questionar se ainda estamos tão fixados em nossa necessidade do ‘ter’. Percebo movimentos bacanas orientando novas práticas de consumo e menos necessidade de mostrar status por meio da ostentação material.

Isso significa então que estamos preparados para ‘ser’?

De repente algo surge entre o ‘ter’ e o ‘ser’: o ‘fazer’. O ritmo frenético e as demandas que não param de chegar nos criam uma armadilha para estarmos conectados 24 horas por dia, fazendo, produzindo! Dá até um peso na consciência quando pensamos em dar uma parada para um café com pão de queijo no meio da tarde.

Minha humilde leitura sobre isso tudo é que, para nos preparamos para ‘ser’, antes precisamos nos preparar para ‘estar’. Estar presente, estar inteiro, estar pleno, estar no aqui e agora. Deixar de fazer e apenas estar.

Uma das temáticas que estamos trabalhando e que vem ganhando muitos adeptos é a famosa Segurança Psicológica estudada por Amy Edmondson. Quando abordamos a necessidade da expressão autêntica como forma de saúde mental e desempenho, todos concordam rapidamente. A ironia é que para desenvolver Segurança Psicológica, precisamos de ambas as partes presentes: quem quer se expressar e quem está disposto a ouvir de forma empática. Aí estou eu, abrindo uma aula sobre o tema e perguntando aos alunos o que eles gostariam de pedir para o grupo para se sentirem psicologicamente seguros naquela sala. Eis que ao longo dos depoimentos, as câmeras começam a ser desativadas e a última aluna expõe seu pedido apenas com a minha câmera aberta.

Claro que tive que perguntar para o grupo se eles estavam disposto mesmo a contribuir para a construção de um ambiente psicologicamente seguro antes de continuarmos a aula e trouxe o ocorrido para uma forte reflexão: o quanto estamos presentes para ouvir o outro? O quanto o ‘fazer’ se tornou mais importante que o ‘estar para o outro’? Como vamos continuar construindo relações dessa forma líquida?

Mas você pode estar se perguntando qual é a vantagem do ‘estar’. E eu que lhe pergunto: onde você pode estar que não seja no aqui e agora?

Texto escrito por Julia Gianzanti – Sócia-diretora da OrigemRH – Desenvolvimento Humano

Artigo originalmente publicado no LinkedIn em 14 de Abril, 2022


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